Olho pela janela e tudo o que vejo são espectros. Deslocam-se para um local predefinido por um qualquer ideal que, com o tempo, substituiu os sonhos que tiveram na infância. Sonhos esses cheios de cor e alegria, Cheios de paz e amor. Não havia preconceitos relativamente a nada. Seres livres, demasiado inocentes para haver preocupações com coisas supérfluas. Verdadeiros artistas de um futuro promissor. Então algo aconteceu, inexplicavelmente cresceram e os parasitas da sociedade substituíram os pincéis por cartões de crédito, os livros por redes sociais descontroladas, as telas por monitores de terror … aos poucos deixar de seguir o seu próprio caminho e fundiram-se com a mesma sociedade que os arrancou de um futuro promissor. Tanto se perde. Tanta coisa que fica por escrever, pintar, esculpir… tudo substituído pela vontade de um monstro sem rosto. Não há pior na vida que não viver a vida que é suposto vivermos. Não há pior que estar num lugar onde não queremos estar.
Eu…
Não saber quem sou ou quem fui é o que me assombra. Pensar para trás e só me lembrar estar num qualquer parque infantil, num dia de inverno com bastante frio. Recordo-me de estar a tremer mas não querer sair dali. Por um qualquer motivo estranho, sentia-me confortável. Não via nada à minha volta devido ao nevoeiro que se tinha instalado e só ouvia carros a deslocarem-se a grande velocidade. Sempre achei estanho os espectros que os conduziam. Pareciam seres sem alma, sem vida.
Não me lembro dos sonhos que tinha nessa altura, se é que existiam, mas sei o que não queria. Sentir a mágoa de perda. Tinha perdido algo importante. Algo que me ligava ao mundo dos vivos. Algo que me fazia sorrir quando necessitava. Algo que me colocava no caminho quando me desviava. Naquele momento, tudo isso tinha desaparecido. Era só eu. Eu e todo o vazio que sentia. Eu e todo aquele frio confortante. Levantei-me e comecei a vaguear junto ao rio ali perto. Caminhada longa. Percorrendo os pensamentos deixei-me levar pelo caminho que levava a uma ponte. Do outro lado, uma margem cinzenta. Decidi ficar a meio, a olhar o rio sem saber que rumo tomar a seguir. Sentia-me vazio. Ao longe ouvia sorrisos de crianças. Brincavam no parque que tinha deixado para trás. Não sei quantas horas passei naquele lugar, nem me lembro como saí dali. Sei que naquele momento algo mudou…
Acordar
Acordo cheio de pensamentos. São provocações sem sentido que em tempos me levaram ao mais negro de mim mesmo. Agora….respiro fundo e deixo os tormentos entregues a eles mesmos.
Sem conseguir silenciar todas as vozes, levanto-me e medito. Concentro-me na minha respiração e sinto o passado e o futuro a afastarem-se. Em um ou outro momento voltam a atormentar-me mas respiro e sinto o ar puro inundar todo o meu ser e relaxo. Sem dar grande importância, deixo os pensamentos fluir… Silêncio .
Estou no presente, onde de momento nada acontece a não ser a vida a fluir em mim. O bater de coração tão imponente ao ritmo alucinante do tempo. Por breves momentos sinto todo o universo a pulsar ao mesmo ritmo frenético. O maestro desconhecido que sincroniza tudo em uníssono para não deixar nada ao acaso. Som puro e belo mas que tão poucos ouvem ou tão pouco querem ouvir.
Aos poucos desperto, a vida la fora já despertou e o frenesim do dia a dia recomeçou com a violência habitual de guerreiros sem destino…
