Não saber quem sou ou quem fui é o que me assombra. Pensar para trás e só me lembrar estar num qualquer parque infantil, num dia de inverno com bastante frio. Recordo-me de estar a tremer mas não querer sair dali. Por um qualquer motivo estranho, sentia-me confortável. Não via nada à minha volta devido ao nevoeiro que se tinha instalado e só ouvia carros a deslocarem-se a grande velocidade. Sempre achei estanho os espectros que os conduziam. Pareciam seres sem alma, sem vida.
Não me lembro dos sonhos que tinha nessa altura, se é que existiam, mas sei o que não queria. Sentir a mágoa de perda. Tinha perdido algo importante. Algo que me ligava ao mundo dos vivos. Algo que me fazia sorrir quando necessitava. Algo que me colocava no caminho quando me desviava. Naquele momento, tudo isso tinha desaparecido. Era só eu. Eu e todo o vazio que sentia. Eu e todo aquele frio confortante. Levantei-me e comecei a vaguear junto ao rio ali perto. Caminhada longa. Percorrendo os pensamentos deixei-me levar pelo caminho que levava a uma ponte. Do outro lado, uma margem cinzenta. Decidi ficar a meio, a olhar o rio sem saber que rumo tomar a seguir. Sentia-me vazio. Ao longe ouvia sorrisos de crianças. Brincavam no parque que tinha deixado para trás. Não sei quantas horas passei naquele lugar, nem me lembro como saí dali. Sei que naquele momento algo mudou…
